20080102

Quando acordei a casa já estava vazia, um bilhete me dizia o número que teria que ligar caso resolvesse fazer algo. Fazer algo se resumia em encontrar meus pais e arranajar algo diferente de macarrão instântaneo pra comer. Mas queria começar a me limpar, queria sentir as minhas próprias coisas fluírem, os pensamentos tão vagos e entorpecidos com o calor que fez nos últimos dias, despertou aos poucos com um bocado de esforço. Lembrei de alguns cheiros, vozes, e coisas significativas do ano que se consumou horas atrás. Como se isso estabelecesse uma distância inatingível das coisas que ficaram. Acontece que eu sou muito preguiçosa, eu não faço nada que seja só por mim. Enchi a garrafinha de água e me afundei no quarto de frente ao ventilador. Acho que fiquei uma boas horas lá, não sei nem o que pensava, só sentia muito calor.
Eu sempre sinto muito calor, eu sou calorenta demais, o problema é que eu sempre reclamo muito do calor e ele parece ficar dez vezes pior. Mas juro que tenho tolerado mais nos últimos tempos, vai ver aquele namorado albino que eu tive só cooperou pra eu pensar que o sol era meu inimigo. Falo com um pouco de desdém porque esses dias tive que ler algo muito horroso vindo da atual namorada. E com ela não aprontei nada, não fiz capricho algum. Fiquei inconformada. Daí é até bom que a gente vai se desligando cada vez mais depois que vai conhecendo o mundinho idiota que o ex vive atualmente. Pensei em ler o Caio, mas logo em seguida pensei que seria bom ficar esse ano todo sem vê-lo. Seria ótimo mesmo, mas não resisto de verdade. O problema que eu me identifico demais, algumas coisas eu considero realmente já sentidas por mim, mas há muita coisa que eu aceito facilmente a linha de raciocínio e acabo tomando as dores daquele filha da mãe do caramba. Fiquei com aquela sensação de querer ouvir uma música que parece não existir ainda, embora saiba que exista muitas belas canções das quais não me deliciei e é certo que essa ignorância faz com que elas não existam de fato. Ao menos não pra mim. Depois pensei nisso como sentimento, ou pessoa, ou relação. Mas em seguida sorri. Eu fico me engando muito com isso. É muita tolice. As ilusórias possibilidades e as realidades áperas.

Acontece que antes de você eu conseguia ser polivalente. E você sumiu, sumiu de verdade, com você eu arriscava pra todos lados e me entregava um bocadinho a toda aquela novidade que eu já conhecia bem. Sem você, só pensei nele, e me desesperei, e todo o mais ficou sem graça, ele sugou tudo que você trazia, até mesmo as dores que você me trazia. E isso é o mais especial nele. Ele é todo um pacote plus de coisas que eu nunca vou saber explicar.

1º de janeiro, calor demais, demais.
Submersa ao nada a campainha tocou. Quase nem me movi, fiquei lembrando de possíveis rostos. Não sabia se a euforia era expectativa que logo se perderia... Quase, quase não reconheci. Você já estava lá, eu tava ali e era tudo real. Onde é que você andou? Só me restava convidar pra entrar. Não sabia se tinha ficado feliz, as reações tem andando tão discretas últimamente que mal consigo identificá-las. Sentou-se, primeiro no sofá da frente. E um bilhão de coisas foram ditas com o olhar. Depois sentou-se ao lado e um bilhão de coisas foram ditas com o tato, olfato, visão.
Anulamos a fala e a audição, porque nada que fosse dito poderia resolver, ou estabelecer a coisa toda, ou definir intenções. A gente nunca foi bom mesmo nisso. Depois você foi embora. A velha expressão, entrar mudo e sair calado. Imagina-se milhões de coisas com a palavra falada, mas o seu silêncio disse manso e certeiro aos meus ouvidos, a minha epiderme, aos meus sentidos...